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Por Guilmour Rossi 26 de Junho de 2018

Por que o novo CEO do GitHub finge não saber a diferença entre GNU e Linux?

Corporações são engraçadas. Seu alto escalão de executivos também. São capazes de enganar descaradamente para construir uma imagem que melhor agrade seus clientes e consequentemente seus bolsos.

Já comentei sobre a bizarrice que o GitHub representava no post “O parodoxo GitHub” e relatei porque, como comunidade, deveríamos deixar de usar a plataforma. Bem, agora com a aquisição da Microsoft, não há mais dúvidas do que fazer.

O que mais me chamou a atenção nessa aquisição, pelo bagatela de 8 bilhões de dólares, foi a carta pública de apresentação do novo CEO do GitHub Nat Friedman (que já começa mal pelo sobrenome).

Na carta online, Nat, relata um pouco da sua história e quais rumos o GitHub seguirá. A parte mais importante é quando Nat, em um desejo de se “enturmar com a galera”, relata sua nostálgica carreira como desenvolvedor.

Nos anos 90, diz ele, ficou encantado em descobrir o Linux, “um sistema operacional que vem com editor, compilador e debugger - todas as ferramentas que você precisa para ser um desenvolvedor.”

I’ve been active in open source since the 90s when I discovered Linux. I was blown away to discover a free operating system that came with an editor, compiler, and debugger—all of the tools you need to be a developer, and all of the source code!

Chamar o Linux de sistema operacional por si só já é um grande problema, já que, apesar de importante, o Linux é “apenas” um kernel e representa muito menos em termos de código-fonte do que outros componentes na maioria dos sistemas operacionais.

O pior, e ato deliberadamente feito foi dizer que deste tal sistema operacional Linux fazem parte um editor, um compilador e um debugger que ainda vinham com o código-fonte. Esses componentes são examamente partes do projeto GNU!

Editor de textos é o GNU Emacs, compilador é o GNU Compiler Collection (GCC) e debugger é o GDB. Todos foram inscritos primordialmente por Richard Stallman no contexto do sistema operacional GNU, um sistema compatível com UNIX mas feito seguindo as filosofias do software livre.

Mas por que então Nat não fez nenhuma referência ao projeto GNU e ainda deixou todo o crédito para o Linux?

Isso é simples de explicar: existe um grande complô nas grandes corporações (e instituições e alguns desenvolvedores) de tecnologia para exterminar o “software livre” como movimento político. E isso não é nenhum segredo, começou em 1989 com a chamada Goodbye, “free software”; hello, “open source”. Por isso eles excluíram GNU - o projeto que nasceu junto com o software livre - de seus vocabulários.

Eles não querem saber de liberdades, não se importam com isso. Querem apenas saber sobre seu código ser aberto para dominarem o marketshare, com sua tecnologia rodando em outros negócios, além de terem correções, auditoria e testes de segurança apoiados pela comunidade e quase sempre “gratuitos”.

O movimento software livre nunca condenou a comercialização ou cobrança do software.

E aí fica claro o lado tirano das grandes corporações de tecnologia: seu interesse não é apenas lucro.

O que querem é o poder, é a dominação! E neste sentido, qualquer refêrencia de liberdade deve ser suprimida. Seja desembolsando bilhões para adquirir outro negócio ou seja numa simples nota de apresentação de seu novo CEO.


P.S. Sugeri uma alteração com uma pull request lá no GitHub com o post do novo CEO.

– Guilmour

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