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Internet livre, cinema livre: Libreflix

Por Guilmour Rossi
31 de Outubro de 2017

O cinema e eu

Criado junto com a internet e com a ajuda dos nossos amigos da baía dos piratas logo me tornei um cinéfilo de carteirinha - devorando filmes e mais filmes e lotando discos rígidos. Estava me apaixonando pela sétima arte e conhecendo o poder do audiovisual; fiz os vídeos da formatura, editei videoclipes para amigos, fiz um curta para o festival de cinema da cidade e quase entrei num curso de cinema depois que terminei o colégio.

O fato √© que a gente cresce √© o nosso gosto por entretenimento muda tamb√©m. Queremos mais, queremos pensar junto, queremos ir mais longe. A s√©tima arte que eu achava que conhecia eram apenas os mesmos filmes hollywoodianos com roteiros da jornada do her√≥i de sempre. Veio a fase de assistir s√≥ document√°rios, do cinema franc√™s, do cinema argentino e latino-americano. Por √ļltimo, comecei a apreciar os filmes punks de baixo or√ßamento e de experimentar todas as produ√ß√Ķes pra l√° de independentes que encontrasse na internet. Logo minam as certezas e o que gostamos √© jogado em um liquidificador para l√° e para c√°.

Mas, claro, o problema não mora nos diferentes sabores da arte; a variedade é inerente a sua beleza, mesmo que existam tipos dela mais difíceis de entender que o próprio conceito de cultura.

O problema, a meu ver, é sobre quem a fabrica, e, claro, sobre quem a entrega.

Um micro panorama histórico

Em toda a Am√©rica Latina a invas√£o cultural do grande irm√£o estadunidense se faz presente desde o come√ßo do entretenimento audiovisual. E aqui no Brasil, muito al√©m do Cidad√£o Kane, j√° crescemos treinados feito os √©psilons de Huxley por um ‚ÄúPlim, Plim‚ÄĚ constante em nossas cabe√ßas.

Ideias diretas como fumar é charmoso, vencer na vida é ter dinheiro, emagreça mais para ser aceita e outras mais sutis, que afetam, de um jeito condicionado, nossa visão de mundo e das outras pessoas, foram plantadas num cofre no limbo de nossas mentes.

Depois da contracultura, do tropicalismo e de outras coisas, veio aquela que trouxe a virada de mesa definitiva: a internet. Para os ingênuos como eu, depois de matarmos a tevê, a grande rede era o passaporte para uma utopia descentralizada de acesso à informação, diversão, imersão em outras culturas, aprendizado de todas as teorias e conhecimento de todas as práticas.

‚ÄúCom a tecnologia temos uma enorme facilidade no acesso √† informa√ß√£o e ao conhecimento. Uma pena √© o grande tempo desperdi√ßado pelos jovens no computador. Muitos ficam horas ali e n√£o aproveitam de maneira produtiva esse tempo.‚ÄĚ

Essas palavras eu diria aos 16 anos, numa entrevista para o jornal da cidade. Um proto-entusiasta-culturalivrista, mas um cagador de regra também.

Entre ‚ÄúLan Houses‚ÄĚ, idas na casa dos amigos e bem mais tarde com internet em casa, fui acompanhando o aparecimento do Napster (na minha vila a gente usava o Ares), a blogosfera, os downloads em RMVB, as comunidades do Orkut, o The Pirate Bay, as compras no Submarino‚Ķ A rede era uma grande uni√£o de pontos interligados, cooperando e criando informa√ß√£o. Avan√ßando o avan√ßo. Par-a-par.

Mas as coisas logo mudaram. Por um lado, passei a entender a quais custos os avan√ßos tecnol√≥gicos eram criados, por outro, era realmente latente que a web em si entrava de cabe√ßa numa l√≥gica capitalista e comercial. Dos acessos cada vez mais cerceados at√© as grandes corpora√ß√Ķes, o que se queria era mais Wikip√©dia e o que tivemos foi mais Amazon.com.

A capitalização total: do P2P a Era do Streaming

O ponto chave da era do streaming √© que, antes, a infraestrutura dos servidores basicamente n√£o suportava todo esse tr√°fego. Era muito caro distribuir arquivos em boa qualidade e com as longas dura√ß√Ķes das obras cinematogr√°ficas de uma maneira satisfat√≥ria para o usu√°rio. Por isso as redes distribu√≠das funcionavam, cada n√≥ na rede recebia e tamb√©m distribu√≠a os arquivos, de byte em byte o usu√°rio enche o disco r√≠gido.

Depois do primeiro boom ponto com, do iTunes copiar o Napster, do Facebook coletar seus dados e dos fundadores do TPB serem presos, a infraestrutura tecnológica possibilitou que viesse aquela que desempataria o jogo entre uma internet dos comuns e a internet corporativa. A Netflix, simplesmente, surrupiou toda a rede e sugou para si a distribuição da cultura audiovisual no ciberespaço de uma forma jamais vista.

Em um aspecto comportamental, os servi√ßos de streaming trouxeram uma facilidade perigosa para o consumo da cultura digital; ficamos pregui√ßosos na busca de outro conte√ļdo. Quantas vezes j√° n√£o ouvi: ‚ÄúSe n√£o tem na Netflix eu nem assisto‚ÄĚ. At√© parece que assistir filme √© sin√īnimo de assistir Netflix. Tomara que n√£o vire verbo feito ‚ÄúGoogle it!‚ÄĚ. Eu, hein. Com uma t√≠mida pluralidade, num mundo de tantos olhares, ficamos presos de novo como na √©poca da tev√™.

Paralelamente com isso, outros monstros tamb√©m se criaram. O poder dos dados e dos algoritmos, sempre analisando de forma meticulosa nossa navega√ß√£o, colhendo informa√ß√Ķes e ajudando nas decis√Ķes comerciais das empresas - no caso da Netflix, levando ao cancelamento de produtos que n√£o d√£o lucro e boatos de s√©ries escritas por intelig√™ncia artificial. Isso √© muito Black Mirror.

Ainda t√™m os programas de c√≥digo fechado, a centraliza√ß√£o de conte√ļdo, o copyright, o DRM, as teles globais todas de olho em planos limitados de internet‚Ķ

Se a revolução vem de baixo em prol de melhorias para todos, o que as gigantes de tecnologia na era do streaming fizeram foi um golpe. Um baita golpe comercial, um golpe um pouco técnico e, infelizmente, um golpe minimamente artístico.

Mas e o Libreflix?

Contra toda essa frustração de um futuro digital que quase foi, somado ao encanto pelo audiovisual e aliado a umas férias ociosa na universidade em 2016 foi que me ocorreu a ideia de trabalhar no Libreflix.

Eu desejava que existissem meios de acessos à cultura audiovisual, tão práticos e amigáveis como os já existentes, só que se fundissem com as ideiais que eu acredito, sejam elas políticas: do uso de software livre, do sem fins lucrativos, e do fomento à cultura livre; ou técnicas: do desenvolvimento colaborativo e do uso de código-aberto.

A ideia inicial era construir algo para rodar num velho notebook que eu queria transformar em mediacenter, então fiz os primeiros esboços e um levantamento de obras que estavam livres para exibição na internet. Mas foi só no semestre seguinte, na universidade, que o projeto foi expandido e ficou online, quando conciliei o seu desenvolvimento com um trabalho para uma disciplina de banco de dados que estava cursando.

A plataforma ainda estava em teste e um pouco capenga quando divulguei para os amigos e colegas próximos. Logo um site sobre GNU/Linux publicou no mês passado pela primeira vez sobre a plataforma e os acessos foram chegando.

Por um ciberespaço nosso e libre

Entramos no ar oficialmente, no endereço libreflix.org, em Agosto. De lá para cá, o projeto tem sido apreciado e apoiado por muitas pessoas. Tenho tentado levar as matérias da faculdade, trabalhar um pouquinho e planejar as novas funcionalidades ao projeto. Da minha maneira, quero remar para aquilo que acredito, para uma cultura, uma internet e uma sociedade mais livre.

N√£o sei como ser√° essa jornada, mas sei que juntos podemos fazer muito mais: descentralizar os meios de acesso; fortalecer produtoras, diretores e artistas; incentivar que criadores liberem seu trabalho de forma gratuita; propiciar meios para que os usu√°rios, quando puderem, contribuam financeiramente com o que consomem; essas s√£o algumas a√ß√Ķes que podem nos levar para uma arte mais livre. H√° um longo caminho, e a web √© nossa aliada - cabe a n√≥s a tomarmos de volta.

Quem sabe ainda consigamos transformar o ‚Äúponto com‚ÄĚ de Com√©rcio, em um ‚Äúponto com‚ÄĚ de Comunidade.

‚Äď Guilmour