pensamento cru

Por Guilmour Rossi 29 de Maio de 2018

O problema da distribuição do cinema nacional na era do streaming

Nas plataformas de streaming, no cinema ou na tevê fica claro que temos poucas opções de acesso ao nosso cinema nacional. E o potencial de nossa cinemalidade fica jogado às traças. Há um grande abismo entre o estado atual na cadeia tradicional de distribuição e o que seria ideal para o cinema brasileiro.

Mesmo com as leis de incentivo e iniciativas como a “Lei da TV Paga“, o que se vê, no geral, é a baixa receptividade do público, tanto na tevê quanto nas salas de cinema.

Não precisamos mais dos rolos de filme para chegar aos espectadores. Por que ainda é díficil?

A indústria estrangeira tem ditado as regras há tempos, e só as produtoras que conseguem imitá-la e que atingem um bom número de espectadores. O restante das obras nacionais fica fechada ao público de festivais e apenas algumas são compradas por canais específicos por assinatura. É um círculo vicioso que resulta na falta de interesse em investir no cinema nacional – seja na produção, divulgação ou na distribuição – e na falta de interesse em consumi-lo, seja pelo costume ou pela dificuldade em encontrar uma sessão.

Mesmo tendo transformado drasticamente a forma como consumimos obras audiovisuais, infelizmente percebemos que o mercado de streaming fez contribuições tímidas para mercado nacional em geral, principalmente se compararmos com o seu potencial de alcance.

Podemos ver nas plataformas de streaming ou VoD dominantes o mesmo engessamento dos outros meios tradicionais, parecendo que os catálogos priorizam os mesmos blockblusters estrangeiros, marcando presença apenas alguns sucessos nacionais. Podemos dizer que as contribuições são mais indiretas, sendo responsáveis pela inserção do audiovisual – que não seja tevê – no lazer de muitos brasileiros.

Já quando falamos de cinema nacional mais independente, aí as plataformas de vídeo genéricas como o YouTube e o Vimeo – e recentemente o próprio Libreflix -, têm um papel fundamental para a divulgação e distribuição das obras.

Algumas obras nacionais independentes no Libreflix

A melhoria veio fora dos muros das plataformas de streaming pagas, se gerando na Internet como um todo, de forma mais “rebelde” também por meio de blogs e das redes sociais. Criou-se um maior diálogo entre criadores e expectadores e surgiram novas possibilidades de mobilização como as campanhas de financiamento coletivo, a organização de festivais e a maior oferta para o acesso e download das obras.

Mas e o futuro? Como serão os meios de distribuição?

Tudo converge para a internet… não pelo ato de assistir, mas sim por aquela mobilização de financiamento, divulgação e o debate sobre as produções – contribuindo para o enriquecimento cultural como um todo. Contando com isso, a esperança, mesmo a médio prazo, é por um boom brasileiro na produção e no consumo audiovisual, seja de obras comerciais ou não. Um cinema cibernovo.

Esse futuro passa pelo encontro de uma identidade nacional com o cinema, que fique menos dependente das produções hollywoodianas. Se falarmos na distribuição em um futuro não muito distante, acreditamos que haverá uma mistura do velho e do novo, entre salas de cinemas e plataformas de streaming.

Isso, porque, bem… o cinema foi feito para a sala de cinema, e os números tem mostrado que as salas tem faturado como nunca (mesmo que hoje sejam carregados pelas superproduções de heróis, as franquias e o gigante mercado chinês). Além disso, temos sentido o aumento no número de iniciativas para a criação de festivais, mostras e dos bons e velhos cineclubes.

Para pensar sobre o futuro das plataformas de streaming, podemos pegar a pioneira comercial Netflix, que se tornou a maior empresa de mídia do mundo. Até as emissoras de tevê estão criando serviços parecidos que trabalhem junto com seu conteúdo televisivo.

É um meio consolidado e que só tende a crescer, junto com o poder da internet. O dever agora é nosso, seja como consumidor ou criador, de debater a mudança e advogar por um novo audiovisual e por meios mais democráticos de distribuição.

– Guilmour